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O EXCESSO DE INFORMAÇÃO ESTÁ NOS ADOECENDO
Durante séculos, a humanidade lutou contra a escassez de conhecimento. Informação era poder porque era rara. Bibliotecas, universidades e centros de pesquisa funcionavam como guardiões daquilo que poderia ou não ser considerado verdade. O grande dilema civilizatório era o acesso. Agora, porém, atravessamos uma mudança de paradigma. O problema já não é a falta de informação, mas nossa incapacidade de processá-la, filtrá-la e hierarquizá-la.
Nossa nova enciclopédia deixou de ser organizada por universidades ou especialistas e passou a ser mediada por algoritmos. A autoridade científica foi parcialmente achatada pelos algoritmos de engajamento e por curadores de redes sociais. Platão talvez se surpreendesse ao perceber que sua alegoria da caverna assumiu uma forma digital: sombras projetadas por telas agora moldam comportamentos, medos e convicções em escala global.
No século 20, a grande doença social talvez tenha sido a ausência de acesso. Mas será que o adoecimento do século 21 não virá do excesso de estímulo, da hiperinterpretação e da incapacidade de silenciar?
Disponível em: https://saude.abril.com.br/coluna/pensata/nem-capsulas-nem-dietas-a-saida-para-o-cansaco-e-desconectar/ Acesso em: 7 set 25. (texto adaptado)
ILUSÃO DE CONHECIMENTO É MAIS PERIGOSA DO QUE IGNORÂNCIA
“O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância. É a ilusão de conhecimento”. Essa frase circula amplamente pela internet, quase sempre atribuída a Stephen Hawking (embora não haja registros de que o físico britânico tenha de fato dito isso). A fonte mais próxima parece ser Daniel Boorstin, historiador americano que escreveu algo conceitualmente semelhante: “The greatest obstacle to discovery is not ignorance — it is the illusion of knowledge”.
Independentemente da autoria, a frase aborda um fenômeno que tem consequências práticas: a confiança desproporcional daqueles que sabem o suficiente para se sentirem competentes, mas não o bastante para reconhecer a vastidão daquilo que desconhecem.
Disponível em: https://super.abril.com.br/sociedade/ilusao-de-conhecimento-e-mais-perigosa-do-que-ignorancia/ Acesso em: 7 set 25. (texto adaptado)
O excesso de informações, embora amplie as possibilidades de acesso ao conhecimento, também pode dificultar a seleção, a compreensão e a avaliação crítica dos conteúdos disponíveis. Nesse contexto, a partir das ideias abordadas na prova de Língua Portuguesa e nos textos motivadores, produza um texto dissertativo-argumentativo que discorra sobre OS DESAFIOS DA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO EM UMA ERA DE EXCESSO DE INFORMAÇÃO.
Em sua escrita, atente para as seguintes observações:
IME 2027: OS DESAFIOS DA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO EM UMA ERA DE EXCESSO DE INFORMAÇÃO
O tema de redação do IME 2027 – Os desafios da construção do conhecimento em uma era de excesso de informação – dialoga, de certa forma, com a proposta de 2026 – O impacto do avanço das tecnologias sobre as habilidades cognitivas e sociais dos seres humanos. Há uma continuidade clara: o desenvolvimento cognitivo diante da sobrecarga de dados causada pelo avanço digital. Para apresentar a frase temática, a banca já estabeleceu um direcionamento, também encontrado nos dois únicos textos de apoio: “o excesso de informações, embora amplie as possibilidades de acesso ao conhecimento, também pode dificultar a seleção, a compreensão e a avaliação crítica dos conteúdos disponíveis”, enfatizando as barreiras em detrimento das possibilidades.
O primeiro texto, desde o título, relaciona esse volume informacional – “de estímulo, da hiperinterpretação e da incapacidade de silenciar” – a uma espécie de adoecimento (mental e cognitivo), contrapondo o cenário contemporâneo ao passado, quando o grande problema era, na verdade, a limitação de acesso. Antigamente, o saber era escasso e protegido por instituições formais (bibliotecas e universidades); hoje, o conteúdo é abundante, mas carecemos da capacidade de filtrá-lo, organizá-lo e processá-lo. Essa “triagem”, antes realizada por especialistas, foi substituída por algoritmos voltados para o engajamento, condição que enfraquece a autoridade científica ao nivelá-la ao discurso e à opinião nas redes sociais.
Se o primeiro texto atrela esse fenômeno contemporâneo a uma doença, o segundo trata-o como um perigo. A falsa percepção de domínio sobre um assunto representa um obstáculo maior ao aprendizado do que a ausência total de dados. Quando uma pessoa adquire noções superficiais sobre determinada pauta, ela tende a desenvolver uma confiança desproporcional – e essa ilusão a impede de enxergar a complexidade da questão e a vastidão do que ainda desconhece; já aquele que se reconhece ignorante em relação a algo está aberto a aprender e investigar. O autor ainda exemplifica o próprio viés ao citar a atribuição equivocada da frase a Stephen Hawking, mostrando como ideias rasas se espalham rapidamente e são aceitas sem verificação.
O Texto 1 da prova de Português – o conto "O homem que sabia javanês", de Lima Barreto – reforça a tese de que a "ilusão de conhecimento" na figura do “intelectual de fachada” pode triunfar. O protagonista atua com tamanha segurança que engana o Barão, a imprensa e a sociedade, acabando por se tornar um respeitado diplomata sem nunca ter dominado o idioma javanês de fato. O meio social aceitava essa farsa porque preferia a aparência de erudição à busca pela verdadeira descoberta. Já o Texto 2 – “Eu, etiqueta”, poema de Drummond – revela que a aparência é mais valorizada que a essência, caracterizando a alienação do indivíduo (seja pelas marcas de roupas, seja por algoritmos) e a perda de autonomia crítica, distanciando-o do autoconhecimento genuíno. Assim como vestir uma grife não torna alguém superior, decorar conteúdos da internet não faz de ninguém um sábio.
Os dois textos da prova de Inglês também estabelecem conexões com a proposta de redação, principalmente no que tange à verificação da verdade e à superficialidade das narrativas. O Texto 3, sobre Amelia Earhart, apresenta os obstáculos superados pela aviadora, que, por não se contentar apenas com a teoria, buscou o verdadeiro conhecimento na prática, na experiência. Ela sabia exatamente a vastidão do que desconhecia (o oceano, os limites da aviação) e, com humildade técnica e extrema tenacidade, transformou a ignorância em descoberta.
O Texto 4, focado em Santos-Dumont, é um exemplo prático de como a chancela científica funcionava no passado: o trajeto do 14-Bis só é considerado o primeiro voo autônomo porque cumpriu regras rígidas estabelecidas por instituições oficiais de especialistas, com demonstrações públicas e comitês de avaliação. O fato de grande parte do mundo acreditar na proeza dos Irmãos Wright, desprovida de rigor técnico, é um exemplo clássico da ilusão de conhecimento em escala global — indivíduos acreditam saber o suficiente para debater o tema, mas desconhecem os detalhes técnicos que definem a verdade.
Os textos da coletânea diagnosticam o adoecimento cognitivo de uma sociedade que se satisfaz com aparências, enquanto os registros históricos em inglês resgatam o rigor científico e a coragem real exigidos diante do desconhecido para gerar conhecimento legítimo. O tema da redação, portanto, enfatiza as dificuldades de se construir um saber genuíno em um contexto informacional saturado, mediado por algoritmos, marcado por superficialidades e por "sabedorias" disfarçadas nas redes. O termo “desafios” na frase temática pode induzir o candidato a estruturar o texto em dois obstáculos – um para cada parágrafo de argumentação – ou a abordar a ideia de forma mais ampla, explorando uma ampla relação de causa e consequência: por que é difícil construir conhecimento nesta era e quais são as consequências nocivas disso para a coletividade?
A proposta é extremamente pertinente aos debates contemporâneos e não deve ter gerado dificuldades; é relativamente fácil elencar exemplos atuais que revelam um negacionismo científico difundido em grupos cujos membros se consideram detentores da verdade. Enquadram-se aí os terraplanistas, os céticos climáticos, o movimento antivacina, os “coaches” que vendem metodologias infalíveis de autoajuda, os propagadores de "curas" sem embasamento científico para determinadas doenças, entre tantos outros. Deve-se considerar também o crescimento vertiginoso das ferramentas de Inteligência Artificial, que “tudo sabem”, mas dependem da cada vez mais rara capacidade humana de filtrar, organizar e processar o volume de dados despejado em suas respostas.
Sabe-se que a redação do IME tem caráter apenas eliminatório, sendo considerado “apto” o candidato que obtiver nota maior ou igual a quatro (4,0) e “inapto” aquele com pontuação inferior. Esse modelo tende a tornar o desenvolvimento textual mais tranquilo, conferindo aos estudantes certa liberdade para conduzir a reflexão, especialmente por se tratar de um cenário vivido ativamente por esta geração.
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