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Leia os textos I e II a seguir para responder às questões 10 a 12.
Texto I: excerto do conto A Igreja do Diabo
I De uma ideia mirífica
Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
— Vá, pois, uma igreja — concluiu ele. — Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja, uma tenda de Abraão. E, depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a ideia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo:
— Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.
II Entre Deus e o Diabo
Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
— Que me queres tu? — perguntou este.
— Não venho pelo vosso servo Fausto — respondeu o Diabo rindo —, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
— Explica-te.
— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
— Sabes o que ele fez? — perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa ideia, não vos parece?
— Vieste dizê-la, não legitimá-la — advertiu o Senhor.
— Tendes razão — acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso
dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal
exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
— Vai. [...]
Fonte: ASSIS, Machado de. Todos os romances e contos consagrados. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. v. 3, p. 369-370.
Texto II
Por curiosas que sejam as cabriolas1 do pensamento e estranhas as fantasias do desejo, não há outro modo de sobreviver no cotidiano senão agarrando-se firme às instituições; estas, e só estas, asseguram ao frágil indivíduo o pleno direito à vida material e, daí, ao doce lazer que lhe permitirá até mesmo balançar-se naquelas cabriolas e fantasias. Vejo nos contos maduros de Machado, escritos depois de franqueada a casa dos quarenta anos, o risco em arabesco de “teorias”, bizarras e paradoxais teorias, que, afinal, revelam o sentido das relações sociais mais comuns e atingem alguma coisa como a estrutura profunda das instituições.
Cabriola: Salto leve, pinote, pirueta. / Mudança repentina de opinião.
Fonte: BOSI, Alfredo. Machado de Assis: O enigma do olhar. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 84-85.
Assinale a alternativa que apresenta a REESCRITA do trecho abaixo transcrito, considerando o interlocutor como terceira pessoa do singular, mantendo a correção gramatical e o sentido original.
“— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...”.
— Senhor, a explicação é fácil; mas permita que o diga: recolhe primeiro esse bom velho; dê-lhe o melhor lugar, mande que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros…
— Senhor, a explicação é fácil; mas permita que lhe diga: recolha primeiro esse bom velho; dê-lhe o melhor lugar, mande que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros…
— Senhor, a explicação é fácil; mas permite que vos digo: recolhe primeiro esse bom velho; dê-lhe o melhor lugar, manda que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros…
— Senhor, a explicação é fácil; mas permite que o diga: recolhe primeiro esse bom velho; dê-lhe o melhor lugar, manda que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebem com os mais divinos coros…
— Senhor, a explicação é fácil; mas permite que lhe diga: recolha primeiro esse bom velho; dê-lhe o melhor lugar, mande que as mais afinadas cítaras e alaúdes lhe recebam com os mais divinos coros…
Todos os verbos que serão alterados da segunda pessoa do plural para a terceira pessoa do singular estão conjugados no modo imperativo. Por isso, é importante lembrar que a conjugação da terceira pessoa nesse modo verbal é sempre uma cópia do presente do subjuntivo. Primeiro, conjugam-se os verbos no presente do subjuntivo (esse tempo verbal precisa do termo auxiliar “que” para que seja conjugado), e, depois, transformam-se em imperativo afirmativo:
Que ele permitaPermita (você)
Que ele recolhaRecolha (você)
Que ele dêDê (você)
Que ele mandeMande (você)
Outro ponto essencial é trocar o pronome oblíquo “vos” pelo pronome “lhe”, uma vez que se trata do objeto indireto do verbo “dizer” (quem diz, diz para alguém). O pronome oblíquo “o” está incorreto, já que esse pronome só pode exercer a função de objeto direto.
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