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O avanço científico e a inovação tecnológica figuram entre os principais fatores associados à competitividade e à autonomia no cenário contemporâneo. Nesse contexto, há exemplos expressivos de excelência científica brasileira em diversas áreas, o que suscita a reflexão sobre a ampliação e consolidação desse potencial a um patamar de destaque internacional. A partir dos textos motivadores e de seus próprios conhecimentos, redija um texto dissertativo-argumentativo, em norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema: “Brasil: do potencial científico à soberania tecnológica”.
Instruções específicas:
1. Dê um título à dissertação.
2. O texto deve compreender o espaço de 25 a 35 linhas.
3. Não faça qualquer anotação na folha de redação.
TEXTO I

[...] A forte concentração da produção em poucos países torna as terras raras um ativo geopolítico estratégico, influenciando cadeias globais de suprimento, políticas industriais e disputas comerciais.
Nesse cenário, países com grandes reservas não exploradas, como o Brasil, ganham relevância no debate sobre segurança mineral, industrialização e soberania tecnológica.
As terras raras estão no centro da economia do século XXI. O mapa global revela um mundo geologicamente diverso, mas economicamente concentrado. Para países como o Brasil, o desafio não é apenas possuir reservas, mas transformar potencial mineral em desenvolvimento industrial, tecnológico e sustentável.
Fonte: BRASIL EM MAPAS. Reservas Globais de Terras Raras. Edição de William M. Ferreira. 10 jan. 2026. Disponível em https://brasilemapas.wordpress.com/2026/01/10/reservas-globais-de-terras-raras/
TEXTO II
O nióbio é um material usado como aditivo em baterias de lítio, mas seu emprego como elemento principal do armazenamento de energia era limitado por sua alta instabilidade. Para superar esse obstáculo, pesquisadores da USP desenvolveram uma bateria capaz de “domar” o nióbio, criando um ambiente estável para permitir que o metal reaja e converta energia química em elétrica. O dispositivo, que teve a patente depositada, tem potencial para a produção de baterias mais seguras e com maior densidade energética, além de reduzir o emprego de matérias-primas como o lítio, o cobalto e o níquel. [...] “Abundante no Brasil, o nióbio é um metal de transição estratégico, com a capacidade singular de acessar múltiplos estados de oxidação, podendo trocar até cinco elétrons. Do ponto de vista eletroquímico, isso representa um potencial energético muito elevado”, afirma ao Jornal da USP o professor Frank Crespilho, do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP, coordenador da pesquisa. [...]
O professor enfatiza que o depósito da patente foi feito pela USP, assegurando que a propriedade intelectual permaneça no Brasil. “Se olharmos a história das baterias de lítio, houve um longo intervalo entre a ciência fundamental, o reconhecimento do potencial tecnológico e a consolidação industrial, período em que muitos países perderam a oportunidade de capturar valor estratégico, ficando apenas como fornecedores de matéria-prima”, aponta.
No caso da bateria de nióbio, ele acredita que esse caminho pode e deve ser encurtado. A ciência já nasce integrada à aplicação, com um princípio de funcionamento claro e proteção intelectual depositada no Brasil. O passo imediato é acelerar o depósito internacional da patente, de forma coordenada, para garantir segurança jurídica e soberania tecnológica.
Fonte: CONSELHO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO (CNPq). Soberania tecnológica se constrói com pessoas: como a formação de talentos impulsiona a autonomia científica do País. Gov.br, Brasília, DF, 4 fev. 2026. Disponível em https://www.gov.br/cnpq/pt-br/assuntos/noticias/cnpq-em-acao/soberania-tecnologica-se-constroi-com-pessoas-como-a-formacao-de-talentos-impulsiona-a-autonomia-cientifica-do-pais-1
TEXTO III
Durante décadas, o Brasil foi integrado à economia global mais como receptor do que como formulador de agendas estratégicas. Essa condição não decorreu da ausência de capacidade intelectual ou técnica, mas de escolhas institucionais que naturalizaram a importação de modelos, a dependência tecnológica e a delegação indireta de decisões críticas a estruturas externas. No contexto atual, marcado pela centralidade dos dados e das infraestruturas digitais, esse padrão passou a representar uma fragilidade estrutural do Estado e da economia.
A soberania, nesse cenário, precisa ser reinterpretada. Não se trata de isolamento, rejeição à tecnologia global ou estatização. Soberania, na prática, é controle efetivo sobre decisões críticas: onde os dados estão, sob quais regras os sistemas operam, quem pode acessá-los, quais riscos são assumidos e como garantir a continuidade dos serviços essenciais. Um país pode usar tecnologia global e ainda assim ser soberano, desde que mantenha comando estratégico sobre seus ativos. [...].
O Brasil já demonstrou que é capaz de construir soluções soberanas quando há decisão estratégica. O Pix é um exemplo concreto. Mais do que um meio de pagamento eficiente, trata-se de uma infraestrutura crítica desenhada sob governança nacional, interoperável, escalável e com forte impacto em inclusão financeira. Seu valor reside menos na tecnologia em si e mais no controle institucional sobre regras, dados e continuidade do sistema.
Esse potencial também se manifesta na base científica. A Universidade Federal de Goiás consolidou-se como um polo relevante em inteligência artificial, com formação acadêmica e produção de conhecimento reconhecidas internacionalmente. O caso evidencia que soberania não nasce apenas em data centers, mas na educação, na pesquisa e na formação de capital humano capaz de compreender, auditar e evoluir tecnologia.
Fonte: ZANINI, Fabrício. Soberania digital: o Brasil precisa retomar controle. Estadão, São Paulo, [s.d.]. Disponível em https://www.estadao.com.br/opiniao/espaco-aberto/soberania-digital-o-brasil-precisa-retomar-controle/?srsltid=AfmBOoosnDBs0OUFy2wLKbCWbTo4O1UiYKXdsBRuioLHG2huAs8Vxhx1
TEXTO IV
O pesquisador Luciano Moreira foi reconhecido como uma das dez pessoas que moldaram a ciência em 2025 nesta segunda-feira (8). A lista é publicada anualmente pela revista Nature, considerada a mais influente do mundo na área científica.
Se o nome dele ainda não era familiar para muitos brasileiros, a tendência é que isso mude rápido. No Brasil, ele lidera uma iniciativa que já vem reduzindo — e, no futuro, pretende eliminar — doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, como dengue, zika e chikungunya. [...]
Moreira diz que o reconhecimento internacional reforça algo que ele já via no cotidiano dos laboratórios brasileiros: o poder das soluções criativas. Ele afirma que o país tem mentes brilhantes, mas ainda investe pouco em ciência para que pesquisas ganhem escala mais rapidamente. Ainda assim, a necessidade de ser criativo diante dos desafios tem sido um trunfo.
Fonte: ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE MEDICINA (APM). Brasileiro que criou mosquito Aedes que não transmite dengue entra na lista dos cientistas que mudaram a ciência em 2025. São Paulo, 9 dez. 2025. Disponível em https://www.apm.org.br/brasileiro-que-criou-mosquito-aedes-que-nao-transmite-dengue-entra-na-lista-dos-cientistas-que-mudaram-a-ciencia-em-2025/
Texto V
A pesquisadora brasileira Mariangela Hungria da Cunha, da Embrapa, foi nomeada para receber o World Food Prize 2025 — o prêmio mais importante da agricultura mundial, conhecido como o “Nobel” da Alimentação e Agricultura. [...]
Engenheira agrônoma pela USP, com pós-graduações nos EUA e na Espanha, Mariangela soma mais de 500 publicações, dezenas de prêmios e um legado que transforma a agricultura do Brasil — e do planeta.
Na Embrapa Soja, lidera pesquisas em fixação biológica do nitrogênio, tecnologia que economiza ao Brasil até 25 bilhões de dólares por ano em fertilizantes, reduzindo impactos ambientais e fortalecendo a produção sustentável. [...]
Inspirada pela cientista Johanna Döbereiner, Mariangela apostou na microbiologia do solo quando poucos acreditavam. Suas tecnologias com bioinsumos já beneficiam milhões de hectares e também a agricultura familiar, por meio de projetos de acesso à inovação.
Mais do que uma conquista individual, essa premiação celebra o que ela representa: ciência com alma, inovação com propósito e um legado que pulsa no coração da agricultura brasileira.
Fonte: SOCIEDADE BRASILEIRA DE MICROBIOLOGIA (SBM). Cientista brasileira recebe o Prêmio Mundial de Alimentação, o 'Nobel da Agricultura'. São Paulo, 14 maio 2025. Disponível em https://sbmicrobiologia.org.br/cientista-brasileira-recebe-o-premio-mundial-de-alimentacao-o-nobel-da-agricultura/
TEXTO VI
Uma substância estudada há quase três décadas no Brasil surge como uma nova esperança para vítimas de lesões na medula — embora ainda esteja nas fases iniciais dos testes clínicos.
Trata-se da polilaminina, versão derivada da laminina — uma proteína produzida naturalmente pelo nosso corpo — e que foi desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
No início deste ano, o medicamento foi autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a iniciar a fase 1 de estudos clínicos.
Essa é a primeira etapa necessária para avaliar com rigor uma substância antes que ela possa ser comercializada no país. Ainda será preciso passar por outras duas fases para avaliar a segurança e a eficácia da molécula, algo que pode levar alguns anos.
A autorização para o início dos testes é considerada um marco para pesquisadores que investigam a molécula há muitos anos e têm obtido resultados promissores em modelos experimentais para tratar lesões medulares.
"Neste momento, não tenho certeza absoluta ainda que estaremos diante de algo espetacular, mas isso é possível", destaca a professora e pesquisadora Tatiana Sampaio, que lidera as pesquisas na UFRJ.
Fonte: BIERNATH, André; DINIZ, Iara. Polilaminina: a molécula descoberta no Brasil 'por acaso' que virou esperança para reverter paralisia por lesão na medula. BBC News Brasil, Londres; São Paulo, 2 fev. 2026. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5y3zvv822jo
Brasil: do potencial científico à soberania tecnológica
A ciência e a tecnologia voltaram ao centro da proposta de redação do ITA. Diferentemente das edições de 2025 e 2026, que abordaram questões mais delimitadas – como a formação em Engenharia e os efeitos do consumo digital, associados ao chamado “apodrecimento cerebral” –, a prova de 2027 propôs uma reflexão abrangente sobre o potencial científico brasileiro. O ponto de partida foi a relação entre produção de conhecimento e soberania nacional: quanto maior a capacidade do país de desenvolver e aplicar tecnologias estratégicas, maiores são suas possibilidades de agir com autonomia. Essa perspectiva aparece de modo explícito no título de uma das referências apresentadas aos candidatos: "Soberania tecnológica se constrói com pessoas: como a formação de talentos impulsiona a autonomia científica do País" (Texto II).
O preâmbulo da proposta reconheceu a excelência da ciência brasileira em diferentes áreas, mas deslocou a discussão para um desafio mais amplo: consolidar essa capacidade e projetá-la internacionalmente – o domínio científico e a inovação tecnológica não representam apenas conquistas acadêmicas, mas são também fatores decisivos para a competitividade econômica, o desenvolvimento e a autonomia de um país.
Os seis textos motivadores examinaram esse desafio por diferentes ângulos. O Texto I partiu da disputa internacional pelas terras raras, recursos minerais que ocupam posição estratégica na economia tecnológica. O gráfico apresentado evidenciou a situação paradoxal do Brasil: embora disponha de reservas expressivas, o país explora menos de 1% de seu potencial. Essa distância entre disponibilidade de recursos e capacidade de aproveitamento ajuda a explicar o interesse estrangeiro e revela a questão central apontada pelo próprio texto: “transformar potencial mineral em desenvolvimento industrial, tecnológico e sustentável”.
Se o Texto I mostrou que possuir recursos não basta, o Texto II apresentou um caminho para agregar valor ao conhecimento produzido no país. Pesquisadores da USP desenvolveram uma bateria de nióbio de alto potencial energético e registraram sua patente, buscando proteger a inovação e favorecer sua aplicação industrial. O exemplo evidencia uma etapa essencial da soberania tecnológica: fazer com que a pesquisa científica se converta em soluções, propriedade intelectual e capacidade produtiva nacional.
A discussão avançou, no Texto III, do campo industrial para a infraestrutura digital. Sob o título "Soberania digital: o Brasil precisa retomar controle", o texto defendeu que a autonomia contemporânea depende também de governança sobre dados, sistemas e competências científicas. A afirmação de que “O Brasil já demonstrou que é capaz de construir soluções soberanas quando há decisão estratégica” ganhou concretude com o exemplo do Pix. Ao estruturar e regular uma infraestrutura financeira própria, o país demonstrou capacidade de coordenar um serviço de grande relevância em um ambiente marcado pela atuação de empresas multinacionais de tecnologia. O texto também destacou a formação de profissionais capazes de “compreender, auditar e evoluir tecnologia”, mencionando a Universidade Federal de Goiás como referência em inteligência artificial e produção acadêmica reconhecida internacionalmente. Assim, a soberania digital apareceu não como isolamento, mas como capacidade de decidir, desenvolver e supervisionar tecnologias fundamentais.
Os Textos IV, V e VI deram dimensão humana e social a essa discussão, ao apresentar pesquisadores cujos trabalhos alcançaram reconhecimento e produziram perspectivas concretas de transformação. No Texto IV, Luciano Moreira foi associado a uma iniciativa de combate à dengue baseada em mosquitos Aedes que não transmitem a doença, exemplo de como a criatividade científica pode responder a problemas de saúde pública. No Texto V, Mariangela Hungria, vencedora do “Nobel da Agricultura” de 2025, representou a contribuição da pesquisa para uma agricultura mais sustentável, com efeitos econômicos e sociais relevantes. Já o Texto VI destacou Tatiana Sampaio, da UFRJ, pelo desenvolvimento da polilaminina, investigada para o tratamento de lesões medulares, e pela autorização da Anvisa para o início de testes clínicos em humanos. Em conjunto, esses casos reforçaram a ideia de que investir em ciência brasileira significa ampliar a capacidade nacional de enfrentar desafios concretos.
A mesma reflexão atravessou parte da prova de Português, ampliando o diálogo com o tema da redação. Na entrevista de Clarice Lispector com o físico Mário Schenberg, a atividade científica surgiu como resultado da combinação entre rigor, intuição e criatividade. Ao apontar a insuficiência de pesquisadores e de instalações de pesquisa, Schenberg também expôs um limite importante: talento, por si só, não assegura desenvolvimento científico. É preciso oferecer condições materiais e institucionais para que esse talento floresça. Em direção semelhante, o texto das questões 7 a 9 abordou a formação de pesquisadores, o investimento público e a cooperação internacional como componentes da consolidação científica do país.
Outras questões permitiram ampliar esse raciocínio. O texto sobre O Agente Secreto, nas questões 13 e 14, embora ligado a outro campo de produção cultural, sugeriu um paralelo pertinente: o reconhecimento de uma realização brasileira pode fortalecer uma cadeia produtiva e a confiança na capacidade nacional, mas sua continuidade depende de incentivos e investimentos. A charge sobre a polilaminina, por sua vez, retomou diretamente um dos exemplos da proposta de redação. A trajetória da pesquisa desenvolvida na UFRJ mostrou tanto a força da produção científica brasileira quanto a importância de percorrer, com rigor, o caminho entre uma descoberta promissora e sua eventual aplicação clínica.
Considerados em conjunto, os textos das duas provas conduziram a uma distinção fundamental: ter potencial científico não equivale, automaticamente, a conquistar soberania tecnológica. O Brasil reúne pesquisadores, instituições, recursos e experiências de inovação relevantes; o desafio é criar condições para que esses ativos gerem conhecimento aplicado, capacidade produtiva e controle sobre tecnologias estratégicas. Formação de talentos, financiamento contínuo, infraestrutura de pesquisa e políticas de desenvolvimento aparecem, portanto, como partes de um mesmo projeto de autonomia nacional.
Essa discussão já havia sido trabalhada pelo Curso Poliedro em 2026, por meio de quatro propostas de redação relacionadas à soberania tecnológica: o enfrentamento do colonialismo de dados; o desenvolvimento de inteligência artificial brasileira como instrumento de soberania digital; a formação de engenheiros comprometidos com um Brasil tecnologicamente forte; e a criação de tecnologias nacionais para ampliar a autonomia do país. A convergência desses temas com a proposta do ITA evidencia a centralidade do assunto na formação dos futuros profissionais da área. Ao escolhê-lo, o instituto convidou os candidatos a refletir não apenas sobre aquilo que a ciência brasileira já é capaz de produzir, mas sobretudo sobre o que falta para transformar essa capacidade em desenvolvimento duradouro e soberania tecnológica.
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